Protegendo o futuro
Tem-se hoje a oportunidade única para protegermos a vida dos nossos filhos: a coleta das células-tronco do sangue do cordão umbilical na hora do parto. Esse precioso material, normalmente descartado, pode tornar-se um seguro biológico para seu bebê. Porque não aproveitá-lo?
As células-tronco encontradas no cordão umbilical e na medula óssea dão origem a todas as células que formam o sangue e o sistema imunológico. Por isso, são utilizadas no tratamento de uma série de doenças que necessitam da regeneração desses tecidos – é o caso de pacientes submetidos à quimioterapia e/ ou radioterapia. Nessas situações a infusão das células-tronco é vital, uma vez que tais tratamentos também destroem as do paciente.
O Dr. Nelson Tatsui e o Dr. Luiz César Espirandelli, diretores da Criogênesis, um dos primeiros bancos de células-tronco de sangue de cordão umbilical do Brasil, lembram que não é possível garantir o uso da célula-tronco autóloga (do próprio paciente) em todas as doenças genéticas. É verdade que a ciência demonstra um aumento na utilização.
No entanto, elas também podem ser usadas por um irmão, ou parente, desde que compatíveis e após autorização do Ministério da Saúde.
Após a coleta do sangue do cordão umbilical a célula-tronco é purificada, guardada em múltiplas unidades e preservada, em tanques de nitrogênio líquido-vapor a 197 graus negativos. “O uso das células tronco pela própria pessoa é uma terapia muito nova, mas os transplantes têm sido feitos com sucesso. Isso porque se sabe que em apenas 5% dos casos existem uma relação causal entre doença e genética. Com a diminuição do número de irmãos e com a difi culdade de doadores compatíveis nos bancos públicos de todo o mundo, o uso autólogo acaba sendo muito importante.
Os bancos privados existem para somar forças ao banco público – que vem sendo útil em apenas 30% dos casos sem doadores familiares – e tentar suprir as necessidades de todos pacientes”, observa o hemoterapeuta e hematologista Dr. Nelson Tatsui.
Banco Público
Optar pelo banco público ou particular? Só você pode decidir. Analise a relação entre o custo e o benefício das duas opções. A primeira questão a considerar é a financeira.
No público não há custo; porém são poucas as maternidades ligadas e o estoque ainda é pequeno – o que dificulta as chances de compatibilidade caso seu filho venha a precisar. É possível doar o sangue do cordão umbilical do seu filho para o banco público. O problema é que apenas maternidades vinculadas à rede BrasilCord realizam a coleta e, por enquanto, elas só estão presentes em algumas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo.
Lembre-se de que você não terá prioridade caso venha a precisar do cordão, e deverá achar um doador compatível com a criança.
Como o Brasil é um país miscigenado, isso pode ser complicado. Por outro lado, se você colaborar com o banco público, contribuirá para aumentar os estoques de amostras. Se bastante gente fizer essa opção, vai ser mais fácil encontrar um doador compatível.
Para doar, a mulher precisa ter entre 18 e 36 anos, no mínimo duas consultas de pré-natal documentadas e nenhum antecedente de doenças como câncer ou anemias hereditárias. O parto não pode ser antes da 35º semana de gravidez nem o bebê deve ter peso inferior a dois quilos.
O sangue de um cordão basta para tratar uma doença? Nem sempre.
Assim como no transplante de medula, recomenda-se que o paciente seja menor de 60 anos. No caso do peso, a matemática é simples: quanto mais pesado o paciente, maior o número de célulastronco necessárias e, para ter muitas células-tronco, é preciso muito sangue. No entanto, como as quantidades guardadas ainda são
pequenas (cerca de 70 ml ou 500 milhões de células-tronco). Essa preocupação baseia-se no fato de que a quantidade preservada atualmente é sufi ciente para o tratamento em uma pessoa de até 40 quilos. Se ele for maior, existem duas opções: no banco público, é possível combinar cordões compatíveis e, no privado, estão em processo de pesquisa a possibilidade de expanda-las em laboratório.
“As células-tronco têm um potencial futuro muito grande. Especula-se que mais de uma centena de doenças poderão ser tratadas. Mas comprovadamente podemos dizer que atualmente existem cerca de 50 doenças graves que podem se benefi ciar. A principal delas é a leucemia”, afi rma Dr. Nelson.
Fique atenta: bons laboratórios contam com clínicas parceiras em todo o Brasil, que podem realizar a coleta no momento do parto e enviar o material para processamento e guarda. Todo o ciclo do trabalho deve ser feito dentro de rigorosos parâmetros de segurança, para que as células estejam em ótimas condições caso sejam necessárias em um transplante.
Dúvidas Comuns
Grandes avanços nas áreas de genética humana e biologia molecular vêm provocando mudanças significativas na medicina. Os últimos dez anos em particular marcaram a expansão do conhecimento sobre as células-tronco e suas aplicações clínicas, inaugurando a chamada era da medicina regenerativa. Descobertas levam a crer que, além de dar origem às células do sangue, as células-tronco têm potencial para se transformar em células do coração, dos ossos, do cérebro, dos nervos, da pele e outros tipos de células. O Dr. Ronald Pallotta, diretor médico da Cordvida explica porque o sangue do cordão é o passaporte para a medicina do futuro.
Quais os benefícios da coleta de células-tronco na hora do parto?
A célula-tronco mais usada para o tratamento de doenças sanguíneas é a hematopoética, encontrada primariamente na medula óssea, sangue periférico e no sangue de cordão umbilical. As oriundas do cordão umbilical, que são coletadas na hora do parto, são células mais jovens que as da medula óssea e ainda não sofreram exposição ao meio ambiente. Isso garante uma menor memória imunológica, permitindo maiores possibilidades para seu uso no transplante de medula óssea. Para se ter uma idéia, a probabilidade de compatibilidade total entre irmãos de mesmo pai e mãe gira em torno de 25%, bastante alta se comparada com a minúscula chance de encontrar uma amostra de um doador não familiar. Porém como as células-tronco do cordão umbilical são menos reativas, elas podem ser usadas em indivíduos não totalmente iguais aumentando, assim, as chances de se achar um doador.
Quais são as aplicações terapêuticas das células-tronco?
Atualmente a indicação para o uso das células-tronco do cordão umbilical é o transplante de medula óssea ou transplante de células tronco hematopoiéticas. De acordo com o National Cord Blood Center, existem mais de 79 doenças tratáveis com esta terapia, dentre elas: doenças oncológicas, do metabolismo ou hereditárias, hematológicas e imunológicas. Com as atuais indicações terapêuticas, estudos demonstram que a probabilidade de uma pessoa vir a precisar de um transplante de células-tronco em sua vida adulta é de 1 em 220 (ou 0,23%), semelhante ao risco de uma gestante de 32 anos ter um bebê com Sindrome de Down (1 em 461 ou 0,22%).
Quanto tempo as células-tronco ficam disponíveis para serem usadas?
Até o momento o tempo é indeterminado. A mais antiga amostra de células-tronco de sangue do cordão umbilical usada com êxito tinha 20 anos de congelamento. Outros tipos de células humanas preservadas em processos de armazenamento semelhantes mantiveram-se viáveis por mais de 55 anos, inclusive células da medula óssea.
Que doenças podem ser tratadas com essa precaução?
As células-tronco do sangue de cordão umbilical podem restaurar o sistema hematopoiético após o transplante que é o tratamento de diversos cânceres, doenças hematológicas e genéticas. Quando armazenadas superam o obstáculo de se encontrar um doador, pois já estão congeladas e são compatíveis com o usuário se for da própria pessoa ou com maiores chances de uso se for para um irmão devido sua menor reatividade. Em todo mundo, milhares de amostras de sangue do cordão foram transplantadas para tratar doenças graves, tanto em adultos quanto em crianças. O sucesso desses transplantes é a validação da capacidade terapêutica das células-tronco do sangue de cordão. O avanço da ciência com a expansão destas células e de seu uso intramedular (diretamente na medula) vem superando a principal limitação para seu uso que é da baixa celularidade.
Fontes
- Dr. Luiz César Espirandelli, anestesiologista, diretor da Criogênesis, médico do Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.
- Dr. Nelson Tatsui, médico hemoterapeuta e hematologista, diretor técnico da Criogênesis, médico do Hospital das Clínicas e do setor de transfusão e coleta de células-tronco da Faculdade de Medicina da USP.
- Dr. Ronald Pallotta, diretor médico da Cordvida, professor da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e coordenador do Centro de Oncologia e Hematologia de Salvador.




